Entrevista com a Diretora Geral Carla Chamon: Representatividade e Liderança
Entrevista com a Diretora Geral Carla Chamon: Representatividade e Liderança
Na ultima quarta-feira (15/04/2026), a Diretora Geral Carla Chamon esteve no Campus Leopoldina para acompanhar a obra do restaurante universitário e demandas da instituição. No mês de combate ao feminicídio no CEFET-MG, a Diretora deu uma entrevista exclusiva para o CEFET News relatando sua trajetória como 1° diretora geral mulher e as campanhas de conscientização da violência contra mulher. Acompanhe:
Como você avalia o seu impacto sendo a primeira mulher diretora do CEFET, assumindo uma instituição que é associado à área de exatas, que infelizmente ainda é associado muito à figura masculina? Como você avalia o impacto para as alunas que vão entrar para o CEFET, que mensagem você acha que isso passa?
"Bom, é difícil avaliar o impacto quando a gente está vivendo o momento, né? Acho que talvez esse impacto vai ser mensurado depois. Posso te falar do meu sentimento, né? Primeiro é um orgulho enorme. Ao mesmo tempo que é um orgulho, é uma enorme responsabilidade estar nesse lugar de ser a primeira mulher diretora e de estar tentando aí romper o chamado teto de vidro, né? As áreas das engenharias, das exatas, elas são historicamente conhecidas como áreas muito masculinas. E mesmo as instituições de ensino são historicamente instituições em que você tem professoras, mas os cargos de direção eles são masculinos, né? Começar a mudar essa história e pensar que eu estou fazendo um pouco essa história é motivo de muito orgulho, mas também de muita responsabilidade, porque a gente acaba também sendo alvo de uma crítica maior, existem as pequenas violências políticas que as mulheres sofrem estando nesse lugar. Mas o meu desejo, o maior de todos, é de que as meninas, quando me olharem, elas pensem principalmente que qualquer uma poderia estar nesse lugar. Qualquer uma de nós, né? Não existe nenhuma trava, nós somos competentes, inclusive trazemos para o espaço de poder, que é o espaço de decisão, um conjunto de sensibilidades, de negociação, de acordos. Eu acho que a mulher ela acaba trazendo essa história também para o espaço de poder, junto com a competência. Então é isso, é um orgulho e o que eu desejo é de ser um exemplo não pelas minhas ações serem melhores que as de outras pessoas que passaram aqui — eu espero até que elas sejam — mas é a ideia de que esse lugar pode ser ocupado por qualquer um, por qualquer uma. Não tem isso: "mulher só pode isso ou só pode aquilo". É um pouco aquela ideia: "o lugar da mulher é onde ela quiser estar". E esse lugar, lugar da direção de uma instituição como o CEFET, é também das mulheres. Se eu servir de exemplo, eu já vou ficar feliz."
Quais políticas de incentivo e permanência a sua gestão considera prioritária para garantir que as alunas ingressem e concluam seus cursos e consigam seguir na carreira?
"Nós temos tomado um conjunto de medidas no CEFET. Em primeiro lugar, eu acho que a medida talvez mais fundamental, fundamental no sentido de que sem ela nenhuma outra política prospera, que é a criação de uma instituição de respeito. Então, desde que eu entrei, nós montamos comissão para fazer a nossa política de prevenção e enfrentamento ao assédio e à discriminação. Montamos os nossos guias: o guia contra a prevenção e enfrentamento ao assédio sexual e moral, o guia de prevenção e contra a discriminação racial e, recentemente, o guia de prevenção e contra a violência. Primeiro lugar, a gente precisa de um ambiente em que as mulheres consigam estar. E ele precisa ser um ambiente de respeito, que as mulheres não se sintam violentadas das mais diversas formas, desde aquela brincadeira que não é brincadeira (que só a gente sabe), até de fato a inclusão. Então, a gente já tem um comitê, todo campus tem um ponto focal para trabalhar exatamente essas questões. A gente quer começar a trabalhar agora com uma política mais forte do ponto de vista da formação dos alunos, transformar isso numa pauta do currículo. E temos, recentemente, conseguido fazer duas ações: uma delas é uma cota de bolsas de iniciação científica júnior para as meninas. A gente ainda não conseguiu fazer isso com as bolsas FAPEMIG e CNPq porque são bolsas concedidas por essas agências, mas nós já provocamos essas agências para que nos permita, para que a gente tenha uma política de cotas. Especialmente numa escola em que a predominância são das engenharias e que as engenharias são predominantemente masculinas, é muito importante, no caso das bolsas de iniciação científica, a gente conseguir ter uma reserva de cotas para as mulheres. Também aprovamos recentemente no conselho diretor uma política de permanência para mães, gestantes, lactantes e com crianças pequenas. E aí trabalhando com outros prazos no curso, para que elas tenham tempo para conciliar a maternidade com o estudo, para que elas continuem com a gente mesmo nesse momento em que a vida familiar ou uma criança exige que ela se dedique mais à criança. Então, que ela não tenha os mesmos prazos, por exemplo, de quem não tem filhos ou dos homens. Então, a gente também está criando essas políticas."
Dentro do mês de conscientização do feminicídio, já que a gente está com o banco vermelho aqui no Campus, como o CEFET planeja unir o acolhimento a vítimas de violência com a educação de gênero no currículo para prevenir a misoginia na instituição?
"Nós nos unimos a outras instituições, às universidades, na campanha do banco vermelho. O próprio banco vermelho já é uma ação educativa. O banco vermelho é uma espécie de memorial, mas ele é um espaço de conscientização. Ali não é só para lamentar, é um espaço de luta. É um espaço para se dizer... eu costumo dizer: aonde existe um banco vermelho, precisa de uma comunidade acolhedora e vigilante, né? Vigilante e parceira de todas as mulheres. Então, o que a gente pretende? Esse foi o pontapé inicial. Ao longo do ano, nós teremos um conjunto de palestras, a gente já teve uma primeira palestra no dia da inauguração do banco vermelho. Então, a gente quer ter um conjunto de palestras para a comunidade no sentido de conscientizar para essa pauta, mas a gente também quer de alguma forma transformar isso em currículo. Não necessariamente numa disciplina, mas a gente precisa chamar o debate dentro do espaço formativo do aluno. Então, uma das ideias é a gente, por exemplo, aproveitar os sábados letivos, para ações, para oficinas. A DEPT e a DIRGRAD já estão estudando, junto com os coordenadores de curso, as melhores ações para que a gente possa trazer isso para dentro do currículo. De novo, não necessariamente como mais uma disciplina a ser cursada, mas como um tema transversal que perpasse as disciplinas do currículo e que tenha espaços de discussão entre os alunos sobre essa temática."
Qual legado você deseja deixar para as próximas gerações de mulheres que pretendem assumir cargos de liderança dentro da educação tecnológica no Brasil?
"Não se intimidem, confiem na sua capacidade e bola para frente. É isso. Porque eu acho que o que mais nos sabota é aquela sensação de que esse lugar não é nosso, de que eu não deveria... a sensação de impostora, eu costumo dizer isso. Às vezes a gente está num lugar e a gente se sente meio impostora, como se não devesse estar ali. Então, o que eu desejo é que elas não sintam isso. Mas é preciso dizer: as mulheres precisam criar uma rede de solidariedade, precisam ser solidárias umas com as outras, porque só nós sabemos de todas as dificuldades diárias, pequenas, que a gente enfrenta para estar nesses espaços. Então é isso. Eu desejo que elas confiem na sua capacidade, tenham a certeza de que devem e podem estar nesses espaços, criem redes de apoio e bola para frente que vai dar certo."